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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Turquia e sua crise da dívida


O mundo está novamente em turbulência : Dessa vez o problema provém da Turquia. Em meados de 2017 economistas norte-americanos alertaram para nova instabilidade financeira nos mercados (leia aqui). Haviam previsto para em torno de abril de 2018. Entre dezembro e fevereiro de 2018  foram observadas reações nos mercados da China e Estados Unidos. 

Com respeito à Turquia, o problema não se restringe ao atual momento e os atritos estabelecidos com a guerra tarifária com os EUA. Mas muito antes. Seu atual presidente, Recep Tayyip Erdoğan, havia assumido como primeiro ministro em 2003, assim permanecendo até 2014, quando então assumiu a presidência após pleito eleitoral. Embora tenha promovido reformas no país como pré-requisito à aceitação na União Européia, o que susteve e ainda mantém razoavelmente bem a economia são os Investimentos Externos Diretos (de US$ 42 bi - 2017). 

Comparativamente ao Brasil, boa parte de suas estatísticas revelam um quadro satisfatório  (porém, não do ponto de vista de países com boa administração pública – para nós, o estado crítico já foi tornado comum há décadas).  Sua força de trabalho é de 31 milhões face 81 milhões de habitantes, e sua pirâmide populacional ainda apresenta a base aproximadamente alargada, não promovendo, ainda, problemas previdenciários. O PIB em 2017 atingiu US$ 851 bilhões, e vem se recuperando desde 2013, quando atingiu US$ 950 bilhões. (1)

A poupança interna é de 25% do PIB, a indústria representa 32% PIB, o endividamento total está em 29,6% PIB (baixo), a carga tributária é de 21% PIB, e a força do trabalho vem 27% da agricultura e 18,5% da agricultura. 

É um país que depende de exportações de commodities, cujo movimento de longo prazo é de queda, embora venha ocorrendo lenta recuperação desde janeiro de 2016. Seu saldo comercial é  deficitário em cerca de US$ 40 bi (2017), o que, junto com a significativa parcela de mão de obra empregada na agricultura ajuda a promover elevada desigualdade social, onde os 10% mais pobres detém 2,1% da riqueza, enquanto os 10% mais ricos, 30,3%. 

A taxa anual de juros subiu, e está em agosto de 2018 em 17,75% ante 15,2% (de dez2017 - nada que se compare aos nossos 457% em média de cartão de crédito – ou 15,38% a.m.). 

O contra-golpe de Erdogan em resposta à tentativa de golpe pelos militares, que visavam defender princípios constitucionais e deter a corrupção de seu governo, em 15 de julho de 2016, fez com que fosse acelerado o processo socialista no país, aumentando a insegurança jurídica e gastos de governo, que estão em elevação contínua em relação à receita (US$ 39 bilhões de déficit), que precisam ser financiados por emissão de títulos, cujo valor de mercado vem caindo desde 2013, de US$ 195 bi para US$ 189 bi em 2015. O que faz com que o país tenha a 29ª. maior dívida entre os países, cerca de US$ 430 bi. 

Tudo refletindo numa inflação que fechou 2017 acumulada em 11,92%. O acumulado em 2018 alcança 9,16% até junho. Porém, a partir de julho é observado comportamento descontrolado, e sua projeção anual agora já atinge 101% (1). Decorre em grande parte, além dos riscos associados com a incerteza, gerando expectativas, em razão da forte desvalorização da moeda, que presentemente vale em torno de 6,05 liras, contra 2,19 em 2013 (com base em US$), o que recrudesce o consumo e piora o desemprego, que atingiu 17,8% em maio último.  

Vale ressaltar que o desemprego passou de uma média oscilante histórica na década de 1990, que se situava em 15%, para o patamar de 20% a partir do ano 2000. Em termos gerais apresenta uma oscilação histórica que carrega em sí um componente sazonal associado ao setor agrícola, do qual a economia é fortemente dependente. Mas a oscilação dos últimos 18 anos apresenta variações mais acentuadas, estando mais fortemente associadas às mudanças políticas do país. 



Especificamente no tocante à crise, já existe a certeza de que 25% do total de títulos especulativos em Credit Default Swaps - CDS (2) - não serão honrados pelo mercado. 

A maior parte da dívida se concentra vários bancos europeus, e somente o espanhol BBVA detém 50% do capital do segundo maior banco privado turco, o Garantí, que por sua vez é um dos maiores compradores dos títulos daquele governo. Os espanhóis compraram cerca de US$ 82,3 bilhões de títulos turcos. Grande parte desses investimentos são visando futuras aposentadorias.

Em 10 de agosto do corrente, foi verificada uma corrida aos bancos para saques em moedas estrangeiras nos três principais bancos turcos, que solicitaram prazo aos clientes por falta de recursos imediatos, que tiveram de ser solicitados às respectivas matrizes.

Já as empresas do país estão elevadamente endividadas em moedas estrangeiras, em cerca de 40% de suas respectivas produções anuais. Em 2017 os maiores grupos empresariais do país tiveram de reestruturar suas respectivas dívidas, em cerca de bilhões de dólares, sendo que este movimento continua em ascensão. Das empresas, o endividamento passa para os bancos. Importante frisar que de janeiro ao presente agosto, as ações dos bancos turcos já perderam 36% de seu valor. Tal desvalorização acentua ainda o cenário de risco, uma vez que para continuarem rolando suas dívidas necessitam de novos empréstimo, que só vêm sendo obtidos no mercado europeu (principalmente em Londres) mediante consórcio entre dois ou mais bancos.

Em suma, a crise vem de longo tempo, desde que o país iniciou sua jornada socializante, em 2003. Com o contra-golpe em 2016 e o acirramento das questões políticas, a economia do país entrou em processo de desequilíbrio, onde o aumento dos gastos do governo passou a gerar desconfianças e riscos de longo prazo percebidos pelos agentes, que responderam, principalmente nos últimos meses, com  fuga massiva de capitais, desencadeando uma crise monetária que agora se transformou em uma crise de dívida e liquidez. 

Culpar Trump por aumentar tarifas alfandegárias a seus produtos, bem como aos "especuladores", ou mesmo o capitalismo, pelas desgraças originadas pelo viés comunista, é o comportamento natural de todos os ditadores.




(1) - Projeção de Steve Hanke, Economista e professor - Instituto John´s Hopkins / Senior Fellow & Diretor da Troubled Currencies Project / Cato Institute e Forbes / FX Commodities Trader / Reagan White House Alum


(2) - Credit Default Swap, ou simplesmente CDS, trata-se de um ativo financeiro de proteção em que um investidor é remunerado quando ocorre o default (não pagamento de uma dívida ou empréstimo) de uma instituição enumerada no contrato.  Quando ocorre, o emissor do CDS responsabiliza-se pelo pagamento ao portador desse contrato. O preço de um CDS está relacionado com a probabilidade dessa instituição não pagar as suas dívidas. Quanto maior o risco de crédito da insituição especificada, maior o valor do CDS; e quanto menor o risco de crédito, menor o valor do CDS. Os CDS se originaram em 1990 como forma de seguro por parte de companhias petrolíferas, devido ao acidente ambiental provocado pelo derramamento de petróleo provocado no Alaska pelo petroleiro EXXON Valdez, em 1989. Está inserido no arcabouço dos derivativos, e em conjunto com outros ativos financeiros "tóxicos" e exóticos, é conhecido como "Mercado nas Sombras".  O montante mínimo para cada operação é de US$ 10 milhões, e o mercado global de CDS foi estimado em março de 2017 em torno de US$ 800 trilhões. O total de derivativos, estimado pelo BIS - Bank of International Settlements,  corresponde a US$ 700 trilhões, sendo o total desse mercado a soma dos dois valores, cerca de  US$ 1,5 quadrilhão. 


Referências :
https://countryeconomy.com/gdp/turkey
https://magnet.xataka.com/preguntas-no-tan-frecuentes/turquia-problemas-crisis-economica-peor-que-grecia-2008-frente-presidente-asfixiante?utm_source=elblogsalmon&utm_medium=network&utm_campaign=repost
https://www.theguardian.com/business/live/2018/aug/13/turkey-financial-crisis-contagion-fears-hit-markets-as-central-bank-takes-action-business-live
https://cincodias.elpais.com/cincodias/2018/08/10/mercados/1533922660_265960.html
https://www.elblogsalmon.com/conceptos-de-economia/que-son-los-credit-default-swaps
https://www.bloomberg.com/news/articles/2018-08-10/turkish-lira-collapses-as-investors-panic-before-erdogan-address
https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/tu.html
https://www.cnbc.com/2018/08/14/turkey-annual-inflation-rate-is-running-at-an-estimated-101-percent.html
https://www.ibtimes.co.uk/alchemy-derivatives-market-could-trigger-next-global-financial-crisis-1613137



Eduardo Mendonça de Lima
Ex-Aspirante a Oficial pela PMDF, Bacharel em Economia, pós-graduado em Administração Financeira, e em Análise, Elaboração e Avaliação de Projetos, pela FGV-Brasília. Cursou o mestrado em Economia do Desenvolvimento pela PUCRS. Ex-integrante do Geipot (Min. Transportes) e Agência Brasileira de Cooperação (Min. das Relações Exteriores). Atuou em empresas de porte do setor privado. Atualmente é avaliador de Empresas, perito judicial e docente em cursos de pós-graduação em Macroeconomia Valuation. Ex-Conselheiro do Corecon-RS - 2010-2016.